quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

31/12/08

Entro no barco e procuro um lugar confortável e com boa vista pra sentar.Não aceno , nem olho pra trás , nem tenho vontade.Lá no porto , fiquei eu também olhando o barco partir , sem choro e sem saudade.Sem saudade também , eu no barco.Junto comigo outra , lá atrás , deixei também todo o lixo , tudo o que joguei fora e não me presta mais pra nada.As emoções passadas , os vícios superados , os traços que não eram meus.Tudo o que me trouxeram e que me dei o direito de recusar , frustração e desamor que não me pertencem , tristeza de outrem , covardia desse , culpas daquele.Nada meu.A lixeira ficou cheia lá atrás , coisas grandes que joguei ali...Ufa!Como é bom seguir viagem leve e sem preocupações.Agora na água , estou no meu caminho e no meu elemento , sou leve , sou brisa , e nada tenho além dos queridos e do amor.Meu auto-amor.Meu amor-fati.Meu amor ao amado.Só levo esses amores leves e minha chave , pra abrir minha porta quando julgar ser bom.Levo meu próprio julgamento , meu código secreto , e guardo tudo na caixinha de prata amarrada ao pescoço.Tudo cabe ali.O meu mundo inteiro.Esse barco é minha casa , essa caixa é meu tesouro e essa chave só tenho eu.E agora tchau , que pra esse porto não volto mais.

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"Há sempre algo de patético nas emoções das pessoas que deixamos de amar."
Oscar Wilde

02/12/08

Os flashes parecem mais frequentes nas noites insones do último mês.Sempre no mesmo horário , naquele momento em que se dorme de olhos abertos , após o pensar sem fim dos dias , em meio à luminosidade fraca do poste na rua , que insiste em entrar pela janela sem cortinas.A menina de cabelo louro-palha , a sala abafada , o ar de temporal , a poltrona de couro marrom , o tapete encardido.E o suor.As pernas da menina coladas no couro pelo suor.Os olhos luzidios e parados , olhos de peixe num aquário muito pequeno.Ela sempre abre a boca , como quem quer contar um segredo; arqueja as costas pequenas e magras numa respiração difícil , os lábios finos brilhando de saliva.Quando fala , tem voz de velha.E o que diz , ecoa longe , como que vindo de outra boca.Porém , o que é aquilo do outro lado?O som vem de fato de outra boca: da velha senhora na cadeira de palhinha , atrás de mim.Ambas falam juntas , e uma para a outra , e eu não existo ali. "Sem mais culpas" , elas dizem. Sem mais culpas , repito só.

27/11/08

Sofro de interferências ocasionais no rádio da minha cabeça , perco informações , não identifico sentenças...porém sou , na maior parte do tempo , tranquila.Não busco a grandeza , se não para o bem , menos ainda para o mal.Meus rompantes emocionais não duram mais do que algumas horas , e logo se vão , deixando no lugar apenas feridas , que me entretenho à lamber , como um bicho qualquer.Talvez possa mesmo definir que sou como um animal: após a luta , não perdôo o oponente , mas tão somente o esqueço , por preocupar-me mais comigo mesma.Lamber feridas é um narcisismo dos mais brutos.

26/11/08

No dia em que fiquei totalmente em paz , era verão , e o calor forte.Não fiquei em paz o dia todo , mas com o crepúsculo a tranquilidade foi chegando , e na quase noite , me sentia como recém nascida.Abri todas as janelas , vesti quase nada , selecionei as preferidas que não ouvia à mais tempo.E bebi.No dia em que fiquei totalmente em paz , pensei em todos com carinho.Nos queridos e detestados.Vivos e mortos.E nos mortos-vivos.No dia em que fiquei totalmente em paz , não esperei mensagem alguma , de ninguém , nem do além.Não quis receber flores , nem insultos , nem compreensão.No dia em que fiquei totalmente em paz , não quis explicar pra ninguém que mundo é esse.Nem o mundo que há dentro de mim.No dia em que fiquei totalmente em paz , não ouvi minha música.Nesse dia , não tive necessidade de me certificar que a mesma era boa o suficiente.Nesse dia , não precisava ser boa pra ninguém.Nem pra mim.No dia em que fiquei totalmente em paz reconheci à mim mesma todos os meus pecados.E amei cada um deles , como uma concubina apaixonada.No dia em que fiquei totalmente em paz , morri um pedaço.E ele virou passado.E no passado ficou a outra.A outra que não sou mais.

19/11/08

É incrível como a liberdade apavora as pessoas.Todos adoram pregar por ela , dizerem-se não preconceituosos , afinal , somos muito modernos e antenados , vamos às festas mais descoladas e adoramos mostrar em público nossas conquistas mais fugazes.Somos o que há de mais cool dentro de nossas roupas cuidadosamente escolhidas na Renner.Porém quando alguém ousa fazer mais do que falar , mais do que fazer pose , mais do que "just trying to be cool" e resolve ser realmente livre , aí o buraco é mais embaixo.Todo mundo quer pagar de super despreocupado , mas todo mundo é também tão frágil em sua ideologia que simplesmente não podem suportar quem realmente resolve ignorar o resto.Ignorar.
Então é óbvio que puritanos de plantão (que tentam mascarar o próprio passado e omitem grande parte de seus segredinhos) estarão cheios de pedras para atirar nas Genis.Joga merda nela , toca pedra nela , a devassa , a mulherzinha suja e desavergonhada.Ui , me abana , vou ter uma coisa.
Quem já leu A idade da Razão , ou qualquer coisa de Sartre , há de saber do que falo: livrar-se das amarras que nos foram impostas , da falsa moral , deixar-se envolver por aquilo que pode ser chamado de fato liberdade , é tarefa das mais difíceis.A culpa cristã está aí para quem quer que queira agarrá-la , e eu a recuso , obrigada.Ser hipócrita também não é parte de mim , desculpa.A vida , sendo uma só ou várias , está aí para que a experimentemos.Com todos os sabores que ela pode oferecer.E eu , meus amores , estou em um banquete.Quem diz que não gosta , ou não tem vontade , ou repudia qualquer ato "fora do comum" , mente.Ou morre de medo.

Have you been experienced?

15/11/08

-No meu trabalho tem uma menina que é a cara dessa aí.Vou mandar flores pra ela , haha.

-Hahaha , eu mandava.E quando tu estiver aqui vou mandar flores pros teus peitos.Digo , pra ti.

-Mas vc tb tem peitões que eu lembro!

-Bojo de sutiã meu bem.Espera pra ver eles livres.

-Mas na fotos...

-Photoshop é o meu pastor , nada me faltará.Nem peitos.

-Hahaha , genial.Tá combinado , terei de avaliar pessoalmente então.

-Eu vou cobrar isso.

-Hehehehe.

19/08/08

Todos os dias , eu , que sou suburbana e pobre , subo correndo a passarela do metrô na esperança de não perder o trem , porque o próximo , dez minutos depois , me faria chegar atrasada no trabalho e levar uma mijada.E , se tu também é pobre e suburbano , deve ter uma vaga noção do quanto é constrangedor e encolerante levar uma mijada (se tu fores rico não , pois assim , quem mija os pobres suburbanos diariamente é tu).
Por isso , hoje , como em todos os outros dias da minha vida , subi correndo a passarela do metrô na esperança de não perder o trem.Geralmente alcanço meu objetivo , descendo correndo as escadas da plataforma e entrando na portinha automática à segundos de ela fechar.Mas hoje não.Hoje , eu parei no meio do caminho na passarela , completamente atônita e sem palavras , tentando entender o que acontecia na minha vida naquele momento.Porque , no mínimo , algo assim não deve acontecer duas vezes na vida de alguém.Pode vir a ser um divisor de águas.Ou até mesmo um sinal divino.Algo sobre o qual eu deveria no mínimo refletir.Hoje , senhores , EU FUI CANTADA POR UM ANÃO.

25/04/07

À ela cabiam apenas a discrição e o silêncio.Protegia-se por detrás de uma timidez exacerbada, reprimia instintos,vivia em tons pastel num mundo sem cheiro.Invisível que era,podia praticar sem medo aquilo que lhe aprouvesse,e podia ser qualquer coisa:lhe caía bem o suicídio.

22/11/06

ela observou aquelas mãos e tentou lembrar dos movimentos de outrora,bem como dos gestos que eram tão peculiares àquele homem,e tentou sentir a falta e a tristeza que deveriam ser dela.nada.as mãos continuaram estáticas por toda a noite e nem sequer protestaram quando se fechou a escuridão sobre aquele corpo.novamente ela tentou sentir,e nada.o amor não se compra com a morte.

15/05/06

um ombro sacudido,madrugada azul pela janela.semi-dia,semi-noite.ela não queria ser acordada,não lembrava nada,não sonhava,não dormia,meio inerte,meio morta.deixou que fizesse o que queria,não sentia,só por vezes uma fisgada por dentro,mas suportava:era quase nada.fazia parte do plano de ser carne,só carne,e ela tinha de aprender[a carne pura não sente,não geme,nem uiva].
enjôo súbito.vômito azedo sobre os lençóis manchados de tantos,o cheiro de escárnio do corpo presente.a satisfação unilateral.mas ela podia aprender.quem sabe um dia.

12/02/06

chá e uma fatia de torta numa tarde de outono.móveis rústicos e uma lareira.grama verde,tenra,balanços sem crianças.quantos ovos para uma xícara de açúcar?nozes.apfel strüdel.óculos.poltrona com almofada feita de retalhos.uma janela de pequenos vidros quadriculados.vento.o não-som de movimento.pequenas patas peludas.
no fundo,dentro de mim vive uma mamãe-esquilo.

30/01/06

ela estava vestida,por arrependimento.pôs o casaco para esconder as marcas,e jurou que jamais se sujaria assim novamente.
(gosto de látex na boca).saiu batendo a porta e pensando em sumir,esquecer,ser outro alguém.escovar os dentes.se anular.qualquer coisa que a limpasse por dentro.mas não.a memória é uma armadilha infecciosa.
Ah , um dia eu também canso , néam?Aquela coisinha de livejournal agora tem links de busca de empregos!Nem eu mereço isso.
E sim, vou transferir meus últimos posts pra cá.E os antigos que gosto mais também.
E sim, essa é a mistura do Brasil com o Egito.
Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeesce ordináaaaaaaaria.